O Responsible Commodities Facility (RCF), iniciativa de produção de soja livre de desmatamento e de conversão da vegetação nativa, recebeu um aporte de US$ 85 milhões do Fundo Verde para o Clima (Green Climate Fund - GCF) garantindo proteção de longo prazo a um dos biomas mais vulneráveis e valiosos do planeta: o Cerrado brasileiro. Com esse investimento, o fundo deverá atingir meio bilhão de dólares em 2028, evitando mais de 25 MtCO₂e em emissões de gases de efeito estufa.
O aporte, assegurado até 2038, contribuirá para mitigar os riscos da iniciativa. A Sustainable Investment Management (SIM), gestora do RCF, estima que o investimento do GCF poderá ser alavancado em quatro vezes com capital privado adicional.
O primeiro programa RCF Cerrado foi lançado em 2022 com investimento inicial dos supermercados britânicos Tesco, Sainsbury's e Waitrose. Na safra 2025/26, o fundo chegou a US$ 60 milhões com a entrada de novos parceiros: Rabobank, AGRI3 Fund, BID Invest e o programa Mobilising Finance for Forests (MFF), gerido pelo FMO, banco de desenvolvimento holandês, com recursos dos governos do Reino Unido e dos Países Baixos. Com o aporte do GCF, espera-se que o fundo alcance meio bilhão de dólares nos próximos anos.
Pedro Moura Costa, criador do RCF e pioneiro em finanças climáticas Pedro Moura Costa, comentou: "Somente investimentos de longo prazo na proteção das florestas podem gerar o impacto necessário para estabilizar o clima. Por isso, criamos um modelo de blended finance que integra capital comercial a outros instrumentos de mitigação de risco financeiro, tornando o RCF financeiramente atraente para seus investidores. A viabilidade do modelo a longo prazo depende da escala, e é exatamente isso que o aporte do GCF nos permite construir."
"Este é, sem dúvida, um ponto de inflexão para o programa RCF Cerrado e também uma oportunidade de aprofundar o desenvolvimento e a adaptação desse modelo a diferentes geografias e commodities. Agradecemos ao Conselho do GCF pelo apoio", afirmou Maurício de Moura Costa, cofundador da SIM e diretor do RCF no Brasil.
O RCF se diferencia pela sua abordagem autossustentável: em vez de subsídios pontuais, oferece aos produtores de soja que renunciam voluntariamente ao direito legal de desmatar a vegetação nativa uma linha de crédito recorrente, com juros abaixo do mercado, como incentivo financeiro contínuo à conservação. O Código Florestal brasileiro permite que proprietários rurais convertam até 80% de suas terras em área agrícola. A inovação do RCF está justamente aí: o programa seleciona produtores cujas fazendas possuem vegetação nativa acima do mínimo exigido por lei e que, portanto, teriam o direito legal de desmatá-la; assim, o RCF oferece a esses produtores linhas de crédito a juros abaixo do mercado como incentivo à conservação. Esses empréstimos destinam-se ao custeio da produção de soja, como sementes e fertilizantes, e se renovam anualmente, acompanhando o ciclo produtivo.
O RCF é capitalizado por meio de um mecanismo de finanças climáticas inovador, lastreado em CRAs Verdes (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), emitidos no Brasil e listados na Bolsa de Viena e na B3.
Kristin LangDiretora do Departamento para a Região da América Latina e do Caribe do GCF, declarou: "O Responsible Commodities Facility reduz os riscos da produção sustentável por meio de uma estrutura de finanças combinadas que fortalecerá a resiliência climática em uma das savanas com maior biodiversidade e maior estoque de carbono do mundo, acelerando a transição para uma produção de soja livre de desmatamento no Cerrado. O aporte do GCF contribuirá para alinhar os incentivos financeiros dos produtores que se comprometem com a proteção da vegetação nativa, conservando o Cerrado sem abrir mão do papel do Brasil como um dos maiores fornecedores globais de alimentos. O projeto reflete o compromisso do GCF com soluções inovadoras de financiamento climático e sua ambição é se tornar o parceiro de referência no Brasil para lidar com as questões climáticas”.



